Sampa: um caso de Ecossistema do Rock no Mundo
Willian Higa - 30/08/25
Eu começo esse texto meio sério, algo que não era meu objetivo. Queria deixar mais leve, tranquilo de leitura, informal mas começo um tanto sério para depois desenvolver com maior tranquilidade. O tema é discutir como a tecnologia passou pelo mundo do rock e como isso mudou as coisas.
Isso aconteceu quando misturei caixinhas nas atividades cognitivas e emocionais que trato na vida. Na caixa técnica, profissional, trabalho análises sobre as mudanças tecnológicas, científicas, tecnocientíficas. Isso passa por economia, antropologia, sociologia, ciência e tecnologia. Na caixa musical, sons de rock, rap, hip hop, shows, revistas, livros. De repente, eu decidi tirar a poeira do muro de separação das coisas e misturar as caixas...
As coisas mudam muito através do tempo. Eu sou fã de rock, do heavy metal, do punk rock e várias vertentes através do tempo. Nelas percebi algo que na nossa corrida do dia a dia passa batido. Porque queremos curtir, relaxar e não vemos como o cenário muda. Como estudo as questões da inovação acabou caindo a ficha de olhar para o mundo do rock de outra maneira. E aí juntei as ideias e coloquei aqui.
Esse artigo é uma análise que faço após muitos anos de observação do mundo da música underground e sua transformação através do tempo, particularmente das inovações tecnocientíficas, que trouxeram novas relações sociais entre músicos, fãs e a galera da música, focada no rock, no heavy metal e no punk rock.
Isso é feito observando duas épocas na cidade de São Paulo. A primeira cena é a Sampa dos anos 80, meados da década até o seu final. A segunda pode estar situada entre os anos 1990 a 2020.
Dou uma pincelada no hardware (instrumentos e equipamentos), software (gestão e comando e underground) e orgware (como o heavy metal se organizava, como era a lógica de produção e como está agora).
Nos anos 1980, a cena foi marcada pelos shows do Kiss, Queen, Van Halen, o poderoso Rock in Rio 1985, passando por Venom, Exciter, Vulcano, Sepultura, Metallica, Ratos de Porão (RDP), entre outros. Uma era analógica, eletromecânica, dos LPs, fitas K7 e videocassete.
A segunda, agrega ao mundo sonoro do rock eletromecânico a tecnologia digital, a partir do CD e da internet (anos 90). Faço aqui uma viagem sobre os ecossistemas de inovação do rock e como a nuvem de roqueiros se coloca no mundo e nas relações interpessoais, coletivas e criativas.
Começamos a partir de lembranças e leituras da década de 1980 em Sampa, uma viagem da descoberta do heavy metal e das tribos fordistas-tayloristas em caixinhas sectárias... rs Tribos que se odeiam, mas se amam, mas conversam limitadamente.
Anos 80 – O underground e o ecossistema paulistano do rock
No começo dos anos 80 eu era fã de música pop. Ouvia rádios FM, tive influência da discotech, dos videoclipes no Som Pop (TV Cultura – SP), no Fantástico, ouvi e gostei da Cindy Lauper, Madonna, Eye of the Tiger, Kiss, Queen e sobretudo Michael Jackson. Amei o álbum Thriller e fui pesquisando até a origem, no Jackson 5 e a gravadora negra dos anos 60, a Motown.
Amei uma música outsider que foi grande sucesso do cantor do Break e que era fora da curva: Beat It. Uma música que não era break, era rock e pirei com o solo de guitarra. Era o solo de Eddie Van Halen! Apreciei o solo, entrei no transe do solo da música, fiz air guitar e comecei a ver que mesmo gostando do Michael (admito que até hoje gosto dele, do Prince e às vezes pulo para o funk, Rap, hip hop do Public Enemy, Racionais MC, RATM, Linking Park, etc) a minha pegada era no rock, no heavy metal.
Essa coisa explodiu no Rock in Rio (RiR), o festival inventado pelo Medina e que virou marca mundial. A principal cidade conhecida pelo mundo como o símbolo do país, com o Cristo Redentor e um dos ritmos mais populares no planeta naquela época, o Rock.
Mas claro, um festival com todo o tipo de música pop e um pouco de rock. Não qualquer um, o hard rock e o heavy metal. Além do Queen, que brilhou em outra noite, trouxe o fino daquilo que a TV Globo apelidou de “Metaleiro”. Eles também amam, é uma sonzeira barulhenta, agressiva, suja, insuportável. Ozzy Osbourne, Iron Maiden, Scorpions e Whitesnake vieram e atraíram muitos brasileiros, sobretudo paulistas... rs
Galeria do Rock. Fonte: Blog Entre mochilas e malinhas
O underground já tinha um ambiente em Sampa. Era o centro (que agora é velho...), numa galeria supostamente decadente, entre a 24 de maio e o largo do Paissandu, grande igreja de escravos, Av. São João, perto da esquina com a Ipiranga (Caetano Veloso que nos chama...). Ali está a Galeria do Rock, com várias lojas de bolachas sonoras, fitas k7 piratas, camisetas pretas, calças jeans, casacos, tênis, botas, skates e uns caras mal-encarados, às vezes cabeludos e esquisitos, que ouviam heavy metal e rock. Isso foi crescendo nos anos 80 até virar um ícone, em um lugar com estrutura arquitetônica bela e revitalizada. Digamos que essa é sede física do Sillicon Valley do Rock no Brasil... rs
Fonte: https://www.collectorsroom.com.br/2016/01/woodstock-discos-loja-fundamental-para_26.html
As tribos de headbangers, roqueiros, heavies se encontravam todos os sábados de manhã, com seus patches, às vezes faziam a via crucis entre a Woodstock Discos (metrô Anhangabaú, perto da Prefeitura) e a Galeria do Rock. Iam para a loja ver vídeos e novidades vindas da Inglaterra ou dos EUA. O pessoal tinha pastas com sacos plásticos e recortes de fotos, revistas, letras de músicas, onde as pessoas trocavam, vendiam, trocavam ideias e namoravam... As sonzeiras analógicas se moviam em um mundo sem internet, telefone celular em que as pessoas anotavam números de telefones e endereços físicos em agendas, cadernos de papel com canetas...
As rádios FM eram veículos de comunicação por onde o underground circulava. Uma das primeiras rádios que ouvi naquela época era a 97FM de Santo André, no ABC Paulista. Tinha programas como o Rockambole. Depois a 89FM, rádio de pop rock, mas que tinha um programa, o Comando Metal, do Walcyr Challas, dono da Woodstock Discos. Teve sempre uma ou duas rádios no dial. Eram minoritárias, mas tinham presença desde então. Muito rock passou a ter presença em outras rádios, mesmo que ocasionalmente. Isso aumentou a presença do rock na cidade e na Grande São Paulo.
Walcyr teve papel fundamental para o ecossistema de inovação do heavy metal, tendo contatos com o underground anglo-saxão, viajando desde 1982, trazendo novidades do rock, heavy metal, punk e lançando discos no Brasil. As gravadoras não gostavam das sonzeiras. Nem o Metallica tinha discos lançados no Brasil até 1986, tudo era pirata ou gravado em programas em fitas k7... O underground paulistano trouxe o Metallica e o thrash metal para o país.
Como fã de carteirinha do Metallica e do Rush, digo que fui ouvir pela primeira vez o Master of Puppets na Woodstock, em pé e com a bolacha rodando no volume total das caixas em março de 86. John Zazula, da Megaforce Records, mandou o disco para o Challas e ouvimos quando foi entregue em Sampa. Fiquei umas 3 horas ouvindo e reouvindo o álbum, magnífico! E depois comprei fita pirata e toquei por meses a fio... rs! Comprei as letras e decorei. É um dos meus álbuns favoritos até hoje!
No dia 27 de setembro daquele ano desci de metrô no Anhangabaú, saída da Dr Falcão, Woodstock e vi num recado numa cartolina escrita em pincel atômico numa estante, que o baixista Cliff Burton havia morrido num acidente automobilístico numa localidade de vikings, Solnahallen - Dinamarca... (não sei se é isso o nome do local da tragédia, é o que ficou na memória...rs). John Zazula telefonou para Walcyr. É assim que a informação rodava no mundo analógico.
As revistas, fanzines eram comuns. A mais importante de Sampa era a Rock Brigade. Revista líder no underground ia das bandas de hard rock, Led Zeppelin, Deep Purple, pincelando o progressivo, passando pelo metal do Sabbath, indo à NWOBHM do Iron Maiden e chegando à podreira do speed, thrash, death metal, como Metallica, Slayer, Sepultura, Anthrax e outras radicalidades que estavam no ecossistema paulistano. Outra grande revista foi a Bizz.
Houve nos anos 80 revistas como a Roll e a Metal, que me parecem eram de origem carioca e tinham influência do metal norte americano. Como sou politicamente incorreto (rs), o “poser” metal, a la Bon Jovi, Motley Crue, Dokken, Cinderella, Ratt, Poison era também focado por essas publicações e talvez tenham tido presença na Maldita FM (Fluminense) do Rio.
Heavy metal dos EUA que se aproxima do american way of life, com carros, bebidas, mulheres e som comercial. Tem um visual andrógino, que de certa forma tem uma influência positiva do Kiss e do Aerosmith. Deixando o sectarismo dos anos 80 de lado (rs), há bandas ótimas e outros enfoques que não se tornaram populares no Brasil. Bandas como o Motley Crue, o Dokken e o Ratt são muito populares nos EUA e pouco conhecidas aqui.
Em Sampa isso teve influência secundária, dada influência do ecossistema inglês e europeu, norte americana no heavy, thrash, black e power metal. Claro, o Bon Jovi tem e presença no Brasil e é mainstream até hoje. Mas isso era distinto nas outras revistas e fanzines paulistas, o que revela diferenças nas fontes de comunicação e gravadoras. Progressivamente houve aumento ocasional do metal na mídia geral.
Show na Galeria do Rock. Fonte: Estadão
As bandas procuravam integrantes no underground e às vezes víamos papéis colados em paredes, portas, vidros em que se procuravam baixistas, guitarristas, vocalistas. Haviam shows divulgados em cartazes e os barzinhos tinham shows divulgados nas paredes da Galeria do Rock. Tatuagens, camisetas, jaquetas, patches e tatuagens rolavam por ali. A Era Analógica do Metal em Sampa rolava no eletromecânico, no visual e os tempos eram moderados pelas andanças e conversas.
Nós éramos fordistas. Nós podíamos ter uma camiseta da banda desde que fosse preta, rs! Um símbolo icônico, que causava repulsa de religiosos, moralistas (never mind the bollocks, já diria o Sex Pistols) e que caracteriza a tribo dos headbangers. Ou como o povo chamava, de metaleiros (maldita Rede Globo! Hoje em dia eu gosto). Eram imagens com capas obscenas, mostrando às vezes o Eddie e algo bem black metal ou do Sabbath... A barulheira era distinta dos roqueiros mais velhos, que curtiam flower power ou rock progressivo e tinham pegada distinta.
A camiseta preta era acompanhada de uma jaqueta e calça jeans, com um tênis, coturno. Patches das bandas eram costurados pelas mães ou costureiras e a indumentária básica era essa. Até hoje isso é comum... O visual hoje é costumeiro e muitas pessoas andam por aí assim. Houve crescimento de design, têxtil e moda na Galeria e progressivamente em outras mídias.
Tínhamos os nossos dragões também, uma loira fantasma no banheiro da escola. Numa alusão à velha Londres, criávamos o fantasma da gangue punk atacando o povo de camiseta heavy. E o medo maior era do careca, atacando solitariamente com uma machadinha um grupo no metrõ... kkkk! O medo do ataque de outras tribos nos amedrontava. Atualmente é só risada! Kkkkk (#SQN estava ouvindo uma entrevista do João Gordo e realmente existiram gangues punks em vários lugares, inspirados em Londres e no filme Warriors...)
Sobre danças e jeito de se colocar num show há rituais um tanto distintos de outros ritmos e músicas. Nos anos 80, o pessoal sacodia a cabeça para frente e para trás em ritmo alucinante, tipo um surto! Isso é legal, mas pode ser ruim porque dói o pescoço e força a coluna, faz mal para a ergonomia. Tom Araya que o diga... Nos anos 90, o pessoal diminuiu um pouco isso, começaram a pular, saltar. E o sinal na mão com os dedos indicador e mínimo, que simulam um sinal macabro, atribuido a Ronnie James Dio é algo muito usado. Todo o roqueiro adotou, mas é muito intenso no heavy metal.
Fonte: Pinterest
Uma coisa adotada nos shows de heavy metal veio do punk. Eu chamo de pogo. É uma dança caótica, frenética, com gestos agressivos, empurrões, quedas e assim por diante. Acontecem no auge de músicas mais populares e agressivas e estão junto com o grito primal. É uma verdadeiro descarrego de tensões, não tem como não ficar calmo depois disso... rs
https://www.youtube.com/watch?v=GQnussoD4RA
Foram poucos shows naquela época analógica após o Rock in Rio, houve uma calmari em festivais. Um dos shows que fui, aconteceu no Parque São Jorge, casa do Curíntia em seu Ginásio. Foi em 86, se não me engano. Um bando de jovens de camisas pretas, foi ver o Vulcano, de Santos, o Exciter, banda canadense do vocalista e baterista Dan Beehler e a histórica banda de black metal, Venom, de Cronos, Mantas e Abaddon. Uma banda horrível, mas pioneira e muito simpática. Odiei o som, mas reconheço sua grande importância para o black e death metal. De certa forma, filhos bastardos do Sabbath e Motorhead... Eles foram pioneiros junto com Metallica, Slayer, Anthrax e Exciter...
Houve nesse período muitos shows de bandas brasileiras e o cenário envolvia casas de shows, ginásios e apresentações em várias ocasiões. Mas os grandes festivais ficaram um pouco mais limitados. O Hollywood Rock rolou em 88, mas com destaques para bandas de rock convencionais. Foi também o auge do rock nacional, como Titãs, Legião, Paralamas, Blitz, entre outros. A cena dos shows ficou mais underground, local e capilarizada.
Em outubro de 89, dia 06 de outubro, fui ao show do Metallica e aí ficou claro como o ecossistema do heavy metal fez diferença. A banda norte americana chegou para seus primeiros shows no Brasil e foi, claro, para o Rio de Janeiro, dia 04. A repercussão do Rock in Rio era a referência mundial. Chegou e tocou para 4 mil pessoas no Maracanãzinho vazio.
Os metaleiros do Rock in Rio 85 e 91 eram majoritariamente paulistas. Rio é reduto do samba, do funk, do pop, eles são referência, tem grande ecossistema do Carnaval e da música pop e isso tem tudo a ver com a cidade símbolo do Brasil. Tem muitos roqueiros lá, mas é minoria e aparentemente tem o ecossistema mais limitado do que o de Sampa. Tem sambódromo, Mangueira, um grande buraco negro cultural, magnético, cativante, mas não tem reduto de rock estabilizado. Sou ignorante no Rio, mas acho isso e respeito a riqueza cultural da cidade, é vibrante. Mas lá é outra vibe.
Voltando para Sampa, o show foi o melhor da minha vida. Um show para 15 mil headbangers no Ibirapuera lotado, cantando muitas músicas dos 4 álbuns, com a banda tocando mais de 3 horas. Brincaram, trocaram de instrumentos e tivemos um vocalista desafinado, o Lars Ulrich, que no vocal é um excelente baterista... rs Ali ficou clara a diferença. No domingo 07 teve outro show deles, com mais 10 mil heavies, fãs de thrash metal. A partir daquela ocasião, a banda esteve muitas outras vezes, sempre com casas cheias, com 40, 50, 60 mil pessoas. James Hetfield fala em inglês com o público, com sua simpatia e a galera responde no ritmo do thrash e do heavy metal.
Um indicador de que o ecossistema do rock, do heavy metal é destaque mundial são as bandas que repercutem em nível nacional e mundial. O que surgiu nesse ecossistema de rock é uma das bandas brasileira de rock mais conhecidas do planeta. Era uma banda formada por dois irmãos, que moravam em BH e viajavam para Sampa. Frequentavam a Woodstock e a Galeria, compravam um monte de discos e levavam para MInas. Gravavam fitas k7 e vendiam em BH. Com isso compraram seus instrumentos musicais e conheceram o que tinha de novo no heavy metal.
Os irmãos Max e Igor Cavalera tinham 16 e 14 anos, respectivamente, conseguiram gravar um dos primeiros discos no Brasil. Era a banda de Black Metal, Sepultura. Conquistaram espaços no underground paulistano e foram migrando para o death e thrash metal. Enchiam os shows em Sampa e viraram a maior banda de metal no Brasil. Cantavam em inglês. A banda virou a queridinha dos headbangers com uma trajetória impressionante, que aprofunda na Era Digital. Isso será motivo para um texto de fã e crítico da maior banda de rock do Brasil em nível mundial.
Outras bandas que são ótimas e têm repercussão são claramente resultados desse ecossistema. A NWOBHM e o hard rock era muito forte e popular, com Iron Maiden, Ozzy, Black Sabbath, Deep Purple, Led, entre outros. E outra banda que destaco é a banda paulistana Viper. Com o vocalista legendário André Matos, a banda repercutiu mundialmente e gravou em 1987 pelo selo Rock Brigade. Angra passou a ser a banda do André e é muito conhecida em nível internacional.
Os resultados de bandas underground gravando discos nos anos 80 podem ser citados: Salário Mínimo, Dorsal Atlântica, Overdose, Vulcano, coletânea SP Metal, Sarcófago, entre outros. Bandas de vários lugares do país, mas com referência no ecossistema de rock paulistano. A Era analógica se encerra com a entrada do CD no final dos anos 80 e entrada da internet a partir disso. A revolução tecnológica mudará o sistema? Veja a seguir.
O Metal na Era Digital paulistana – uma visão em atenção flutuante
A partir dos anos 90 começamos uma nova fase da cultura musical.
Já como jovem e com muitas preferências adotadas nos anos 80 e com outros afazeres, tive algum distanciamento das novidades. Continuei a curtir bandas daquela década e gostei muito do Grunge. Passei a ser mais diversificado ao ouvir outros estilos, tive algum distanciamento do underground, conhecendo muitas bandas, mas sem a mesma dedicação headbanger de antes. De qualquer maneira, continuei a ler e acompanhar o cenário, sobretudo na ligação com as bandas preferidas, som eletrônico, RAP, hip hop e thrash metal. Uma espécie de maluco beleza repaginado...
A velha bolacha, o LP ainda existe, é cultuada e voltou valorizada, mas passa a ter uma transição para os CDs e o videocassete para o DVD. A transição digital começa no computador e as fitas K7 entram em obsolescência planejada e desejada pelas gravadoras. A velocidade da luz faz mudanças drásticas para os fãs de música e do rock. Passamos a ter contato muito mais rápido com músicas, sons, clipes, o que dá uma sensação de que o underground domina devido à liberdade de trânsito e a suposta facilidade de acesso às sonzeiras e notícias, está tudo na mão, nos dedos, no mouse...
Uma descrição do novo cenário revela um orgware, uma organização da produção digital, que traz uma sensação de novidades e conforto para ser roqueiro e fã de heavy metal. As letras das músicas chegam nos sites e deixam de ser relíquias. As notícias e shows começam a chegar por emails ou até eram publicadas na internet, em sites especializados. Os instrumentos musicais começam a ter maior produção, queda tendencial da taxa de lucro pela redução de custos de aquisição e acesso. Apesar de caros passaram a ser mais acessíveis. E os estúdios acabam sendo menos caros. A digitalização passa pelo computador e o tempo de transmissão é reduzido para segundos. Nos anos 90 a velocidade dos ecossistemas passa a ser da luz.
Contudo, nem tudo do orgware é apropriado pela máquina, diria o RATM. O conhecimento e a experiência com a música, com o meio persiste. O pogo, as conversas e os diálogos permanecem. Nem tudo é percebido pela inteligência artificial. O conhecimento tácito de quem lida com instrumentos musicais, tangencia LPs numa loja simplesmente curte uma música não é apropriado pelos datacenters. E isso fica acumulado nos ecossistemas do rock, seja presencial ou virtual. Conversaremos mais sobre isso...
Uma visão de uma turista sobre a Galeria do Rock:
https://www.youtube.com/watch?v=587gwYHo8HQ
A cena do metal em Sampa cresceu progressivamente. Hoje, os headbangers dos anos 80 viraram tiozinhos do Metal. Tem avô, pai e filhos nos shows. As mulheres, que eram minoria antigamente, cresceram e botam seus gritos primais nos shows. Bandas formadas por mulheres crescem no Brasil e no mundo. As bandas existem em maior quantidade e a cena deixou de ser homo social e passou a ser plural. Rob Halford declarou ser homossexual e isso atenuou e muito a homofobia. O crescimento orgânico dos fãs de rock, heavy metal e punk ocorre nas famílias e na comunicação horizontal, além dos espaços e shows frequentes no Brasil.
O número de shows veio crescendo progressivamente. Além de Sampa, Rio, há presenças em Porto Alegre, Curitiba, Recife, Brasília, BH, entre outros locais. Mas Sampa tem dezenas de shows em 25 e até festivais com rock, metal, punk e tribos diversificadas. Isso garante até um turismo do rock, com pessoas se deslocando para os locais dos shows. E isso chega a ocorrer na América do Sul, com roqueiros saindo de seus países para o Brasil e vice versa. Sampa é uma espécie de buraco negro, de hub do rock and roll e heavy metal no Brasil e na América do Sul.
Eu deixei a maior parte do vestuário, danças, rádios FM e outras características culturais nos anos 80 para não ficar repetitivo. Mas como esse espetáculo teatral aconteceu esse ano, faço um corte para ele. Num festival de heavy metal ocorrido em Sampa, o “Bangers Open Air”, uma banda de heavy metal sueco Sabaton trouxe alguns headbangers de lá e além do pogo, uma criação típica da Escandinávia. Reduto mundial do heavy metal, eles incorporam a cultura viking nas músicas e os deuses Odin, Thor e Cia. O pogo viking consistia em sentar no solo da música e simular um barco viking, com remadores em ritmo, com aqueles movimentos da turma do Ragnar Lothbrok. Foi vibrante e mostra que há flexibilidade interpretativa e cultural para além dos anglo-saxões...
Houve um crescimento orgânico do ecossistema sonoro, porém as barreiras à entrada de novas bandas é um nó crítico para aqueles que curtem rock e metal. A Galeria do Rock virou um local com vendas de LPs (recomendo a histórica Baratos Afins), tatuagens, camisetas, cervejas especiais, CDs e outros adereços e produtos, um shopping center, até com locais para shows, entrevistas e happenings. Um espaço cultural e de turismo repaginado. Uma visão do Gastão na Galeria do Rock:
https://www.youtube.com/watch?v=kiDhRS3rEmI
A Galeria tem uma circulação boa, sobretudo aos sábados, mas falta comunicação ativa da “organização da produção”, que se metamorfoseou. Tem um ótimo Instagram, mas o FB está parado. Não sei se tem zapp ou telegram para novidades das lojas e happenings. A procura por integrantes, prosas e entrevistas, algo que ocorria antes, talvez possa ser enfocada. E um espaço para bandas novas poderiam aparecer e repercutir junto com ação integrada outras redes das nuvens da Galeria.
Um detalhe a ser colocado. No subsolo outra tribo se manifesta. As tribos de funk, hip hop, break, ritmos afroamericanos rolavam com indumentária, corte de cabelo e até hoje marcam sua presença próximo à igreja secular do Largo do Paissandu. Ela está menor do que era nos anos 80, mas tem presença. E o comportamento da tribo também era parecido na Era Analógica e menos expressivo na Era Digital. É o sincretismo musical e a pluralidade na Galeria...
As rádios rock em Sampa a partir dos anos 90, destaco que houve as rádios Brasil 2000 e a Kiss FM. A 89 FM parou um pouco e está de volta, com pop e hard rock, às vezes heavy metal e é muito popular. O programa mais antigo de heavy metal rola há décadas, o Backstage, do Vitão Bonesso. A Kiss FM continua a ser mídia relevante desde 2001 para curtir no congestionamento, nos carros, motos, ônibus ou em casa... Está presente em Sampa, Rio, Brasília e outros locais, até na internet ou em app.
As redes sociais ocuparam boa parte da dimensão orgware, da organização da produção. Softwares da Meta, do Google e aplicativos tipo Spotify e Youtube substituíram as letras xerocadas, datilografadas e digitadas. Os tradutores estão online. Vídeos de shows e de músicas estão na rede. As conversas e diálogos podem ocorrer no Instagram, Youtube, Facebook, entre outros. As conversas parecem atomizadas e tudo se move em velocidade da luz. As músicas e vídeos podem ficar na nuvem e dispositivos acumulam os dados que antes ficavam nos álbuns.
Claro, a propaganda chega até nós. A Meta, dona do Facebook, Instagram e Whattsapp tem o controle sobre essas redes sociais e têm um acúmulo de dados sobre nossas preferências, gostos, opiniões e isso proporciona propagandas dirigidas de músicas, roupas, adereços e até novos produtos. Isso empondera seus conhecimentos, porém retiram parte desse conhecimento do ecossistema em si. As conversas sobre coisas do metal acabam ficando no ter produtos do que no ser headbanger e as atitudes no metal, punk e rock. Tem divulgação de alguns shows, isso é bom. A transição do ecossistema analógico para o digital precisa ser avaliada e reprocessada.
O celular chegou nos anos 90, muito chique e foi tendo a queda tendencial da taxa de lucro até virar quase universal. Ele faz parte da maquinaria digital e substitui gravadores, máquinas fotográficas, câmeras, entre outros. O Graham Bell meio que foi esquecido e roda pelo Telegram ou Zapp. As nuvens se comunicam pelo artefato tecnológico e ouvir música fica muito mais fácil. De qualquer maneira, as nuvens de roqueiros, headbangers e punks poderiam ter mais articulação conjunta, mais sinergia para impactar outras nuvens e alcançar um grande impacto no mundo. E não ter que (re)ler a “História Social do Jazz”, do historiador fã de jazz Eric Hobsbawn...
O ecossistema do heavy metal entrou no paraíso?
Pura ilusão. As gravadoras não sumiram, elas sublimaram. Elas se desfazem magicamente na internet, são discretas, invisíveis, ominiscientes, estão em tudo e em todos os lugares. Ser “comercial”, se vender, ser underground não é mais declarado no século XXI. O punk anarquista, socialista vira pop e o metal se torna popular, fura bolhas. O Black Album, do Metallica, entra no mundo pop e chega aonde nenhuma banda de heavy chegou antes, vendendo dezenas de milhões de álbuns, com mais de um bilhão de views em algumas músicas nos Spotifys da vida. Quem vira mainstream fura bolhas, está na mídia mundial e no top of mind.
Para ser visto precisa de impulsionamentos no Google, na Meta ou no X... Isso limita o surgimento de novas bandas. A dimensão software da tecnologia, a gestão é feita pelas Big Techs e com instrumentais invisíveis. Isso gera a força dos Sylicon Valleys, com seus datacenters de alto impacto ambiental... E que bloqueiam novas bandas no cenário. Aí a gente se sente como não ter um LP do Metallica no Brasil em 1986... O que será que passa na cabeça das gravadoras? Será que teremos bandas criadas por IA???
Uma coisa que fica é que as bandas Sepultura, Angra, Viper, Cavalera Conspiracy, Soufly, entre outras, continuam relevantes e muito conhecidas. Da cena do século XXI destaca-se o Krisiun, Shaman, Thel Hunt, Crypta, Orizzon, Nervosa e Sinistra, presença feminina importante no Metal, inclusive nos extremos, o que é muito interessante! Mas é pouco para a necessidade de mais novidades no cenário. Isso demanda um ambiente coletivo de underground digital...
Saiba como "Master of Puppets", do Metallica, foi parar em 'Stranger Things'. Créditos: Reprodução/Facebook/Twitter
Assim, o mainstream dos queridos e astros roqueiros de 50, 60 e 80 anos de idade chegam à fase mais do que madura. Na nossa cerimonia derradeira com a banda fundadora do heavy metal Black Sabbath, julho de 25 direto de Birmigham, acompanhamos a despedida da banda inglesa, do líder Tony Iommi e do comedor de morcegos, Sr. John Michael Osbourne.
A última cerimônia, Back to the Begginimg. teve mais de 40 mil espectadores no estádio da equipe Aston Villa, de Birmigham e por milhões de pessoas através da internet em nível mundial. Chorei junto com parte da plateia quando o rei da cerimonia, sentado em seu trono, cantou Mama I’m coming home! Desencarne perfeito do Ozzy no final de julho, 22! Repercussão mundial. E um toque de que referências estão indo...
Sampa tem centenas de milhares de fãs de rock, heavy metal e punk. Há tribos de metal que têm suas bolhas e a juventude está presente. O Brasil tem pelo menos outras centenas de milhares de roqueiros. Existem muitas nuvens, que às vezes nem se conversam devido à riqueza e pluralidade artística. Hard Rock, Grunge, NWOBHM, Thrash, Extreme, Black, Death, Power, Simphonic Metal são alguns exemplos. Não é nem nunca será majoritária, mas tem presença, comunicação e repercussão até na mídia convencional. O crescimento do público é perceptível e o conhecimento garante público e atrações. O hub do heavy metal na América do Sul se encontra em Sampa e arredores.
Mas fica o sinal de preocupação. Há boas bandas, mas elas não repercutem porque os impulsionamentos do mainstream dificultam a entrada de novos. Tem de ter um planejamento e mais ações visando maior flexibilidade nas nuvens. O envelhecimento dos integrantes de bandas é evidente e parece que não há renovação. E o underground precisa aprender a desbravar a rede mundial para sair da sobrevivência para ser uma alternativa na música. Talvez o ecossistema de inovação físico, presença física real precise entrar com mais força e articulação nas nuvens digitais.
Poder se constrói, como foi feito nos anos 80. Eu acho.
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