Como seria um embate entre Xi Jinping e Trotsky?


 

 As brigas em redes sociais estão baseadas no futebol. O Brasil é reconhecido mundialmente pelo esporte bretão, mesmo que a criatividade brazuca esteja lá, com craques como Garrincha, Pelé, Sócrates, Romário e Ronaldinho Gaúcho, entre outros. Temos lutas campais nos estádios em nome da paixão pelos nossos times e torcidas. Até matamos para humilhar o adversário, mesmo que tenhamos amor por amigos de vida fora do campo, na vida... Aí vale tudo para ganhar disputas: mentir, falar mal da mãe, irritar, xingar e criar imagens ruins dos rivais. Porco, urubu, favela, gay, ladrão, burro etc. Tudo pode mudar depois do jogo. Ou não... 

Na discussão sobre política algo que ficou pesado é o debate mundial. As lutas são seculares, prendadas, tradicionais, mas os gritos de ordem são remodelados fora da racionalidade, da história e do conhecimento. Passaram a ser torcidas organizadas, onde vale mentiras, fofocas e discursos de humilhação e de fraudes para justificar a vitória sobre o adversário. E isso envolve diferenças religiosas, culturais, étnicas, históricas e organolépticas. O importante não é ter um argumento “de verdade”, importa ganhar no volume, intensidade e vencer no grito. É quase uma regressão civilizacional que permite o crescimento do fascismo e do Obscurantismo. 

A motivação deste texto é uma resposta aos críticos do BRICS, composto por países não alinhados (Brasil, Índia e África do Sul) e de países socialistas (China e Rússia/URSS) no século XX. Na polarização com o Ocidente é comum a criação de figuras imaginárias que retratam a construção da multipolaridade enquanto disfarce para um novo imperialismo. A disputa de hegemonia seria uma nova dominação mundial liderada pela China socialista? Para essa análise ficcional trago um personagem histórico brilhante e que poderia ser a face coletiva de forças ao redor do PC Chinês e de seu líder atual, Xi Jinping: Leon Trotsky. 

Da LIT: Trotsky - relação com a China

Alguns críticos atuais consideram que o declínio do imperialismo norte americano demandaria a emergência de um substituto, no caso, do antigo império do Centro. Após Roma, Espanha, Portugal, Inglaterra, entre outros, surgiria um império, vindo da nova superpotência mundial oriental.  Neste contexto, a provocação seria encontrar uma representação desse imperialismo, uma espécie de trotskismo chinês. Ele existe, é Xi Jinping? Como ele procede? Ele tomará Taiwan, como afirmam os EUA, Japão e outros vassalos do Ocidente? Há uma nova Guerra Fria? 

Hoje a China é uma superpotência em várias fronteiras do conhecimento e na economia. A segunda economia do planeta, somente abaixo dos EUA sugeriria uma nova Guerra Fria na luta pela supremacia mundial. Uma espécie de fantasmagórico imperialismo chinês, uma substituição aos norte-americanos em declínio. Logo, como ficaria o papel cognitivo e sociodramático do Trotskismo chinês? Ele existe ou é somente uma peça ilusória dos adversários e inimigos do país asiático? Se existirem quando eles começarão a dominação mundial? 

É algo que o Ocidente Coletivo do século XXI remonta para justificar a fobia secular à Rússia e à China, assim como demonizações feitas a países que se colocam em oposição aos imperialismos dos EUA e de países europeus nos últimos 500 anos. Olhando para o espelho refletem os fantasmas de guerras passadas deles nos outros. E isso coloca uma análise inicial a partir da figura simbólica e uma análise da disputa de hegemonia nos anos 2000. 

Trotsky foi um intelectual soviético e líder do Exército Vermelho na Revolução Russa, representa de certa forma a revolução permanente. Para isso trago para a memória recente os embates na revolução russa, uma breve lembrança dele e uma análise da China liderada por Xi Jinping e os instrumentos de uma transformação radical nesse cenário. Começo a seguir trazendo um personagem que liderou a Revolução Russa e que serve como base para o texto.


TROTSKY 

, Fonte: Chinaworker.info 


Liev Bronstein, conhecido como Leon Trotsky (ver mais aqui ), foi um líder revolucionário e intelectual soviético. Apesar da derrota na escolha para ser o líder da URSS, contribuiu para avaliar o processo revolucionário em uma visão crítica em várias áreas, na ciência política e no internacionalismo. A sua erudição, demonstrada na elaboração teórica e de vários intelectuais trotskistas criou uma abordagem macropolítica e mundial, como uma leitura abrangente de transformações, econômicas, sociais e culturais.  

 Trotsky e Frida Khalo – Gettyimages. 

A teoria da revolução permanente em sua formulação de 1905 pode ser resumida como se segue: “a vitória completa da revolução democrática na Rússia somente pode ser concebida na forma de ditadura do proletariado seguido pelos camponeses. A ditadura do proletariado, que inevitavelmente colocaria sobre a mesa não somente tarefas democráticas, como também socialistas, daria, ao mesmo tempo, um impulso vigoroso à revolução socialista internacional. Somente a vitoria do proletariado do Ocidente poderia proteger a Rússia da restauração burguesa, dando-lhe a garantia de completar a implantação do socialismo.” (Bianchi, 2000) 

Ou seja, sem o apoio da classe trabalhadora dos países mais desenvolvidos do capitalismo não haveria condições de suportar a ofensiva capitalista à revolução russa. Por isso, era necessário construir uma rede mundial de solidariedade ao socialismo soviético. A classe trabalhadora em nível internacional precisava “proteger” a URSS para que ela triunfasse.  

Marginalmente, isso induzia a criar um espaço de disseminação de revoluções socialistas e comunistas pelo planeta Terra, com estímulos, financiamentos, manipulações e conquistas de territórios, países para chegar à Revolução Mundial.  A suposta emergência de imperialismo chinês seria um espelho dos imperialismos portugueses, espanhóis, holandeses, ingleses e norte americanos. A fase jovem da Revolução Russa inspirava mais a tomada do poder do que a emergência de um novo modo de produção e passou pelos anseios às dominações coloniais, ao imperialismo e ao capitalismo. O internacionalismo era relevante nos países subdesenvolvidos. 

Final dos anos 80, queda do Muro de Berlim. Eu nunca fui trotskista, sou do afoxé Filhos de Gramsci...rs Logo, via os militantes da IV Internacional e gostava dos símbolos deles e das informações sobre revoluções ocorrendo mundo afora. Tem crise econômica com o roubo da poupança pelo governo Collor? O importante era observar as crises na Cortina de Ferro, na Albânia ou em algum país africano... Logo, como os ambientalistas falavam, pensar globalmente e agir localmente. Talvez esse esforço intelectual antitético não fosse inútil... ou não?  

Apesar da opinião favorável a uma leitura macropolítica e internacionalista de Trotsky, considero que a visão de Stalin focada na construção da URSS foi adequada e teve resultados significativos, com erros e acertos. A mesma questão avalio para Mao Zedong, ao priorizar o desenvolvimento da China, na reforma agrária, na industrialização e nas relações internacionais focadas na Ásia, apesar dos problemas com a URSS. Deixo uma avaliação crítica sobre Stalin aqui .  

A provocação do texto está em uma análise de um intelectual, líder ou força política que tenha uma inflexão no PC Chinês para uma revolução “mundial”. Trotsky não teve influência relevante no maoismo, na China, não há na correlação de forças partidária algum movimento de uma revolução permanente chinesa1. A provocação, na verdade, é analisar como essa ideia se desenvolveria, qual o contexto atual e como isso representaria indícios de um suposto imperialismo “socialista”. 

Não tenho uma pesquisa aprofundada sobre a correlação de forças no Partido Comunista Chinês.  O maoísmo não tinha ligações orgânicas com o trotskismo e havia ações contrárias a isso. Houve presença ínfima e que se deslocou com o passar do tempo para Hong Kong, como um pequeno partido local, pouco relevante. 

Nesse sentido, passamos a discutir os primórdios da experiência chinesa e analisarmos a revolução permanente vivida no século XX. Começo a avaliar o processo histórico da China e as influências da China e o internacionalismo. 

A Revolução Russa e o embate original do “imperialismo soviético” 

Até o final do século XIX, o movimento socialista era muito plural e flexível, com muitos grupos, líderes, seguidores, com crenças e tensões após a revolução francesa, na qual a classe trabalhadora aparece como ator social, na ala esquerda do plenário. A Comuna de Paris apresenta a diversidade de grupos e uma visão que passa por socialistas utópicos, como afirmava Paul Singer. A alta efervescência cultural, científica, política e militar convivia com analfabetismo, fome, miséria e religiosidade. As bases construtivas disso são parte de uma convicção de luta pela igualdade social, democracia e utopias. A esperança e a solidariedade permeiam o estatuto de valores.  

Sempre tive discussões sobre temas progressistas com amigos de prosa e de luta. E há alguns clássicos, por exemplo o embate entre tribos de esquerda, tipo Stalin x Trotsky, reforma x revolução estão entre eles.  As discussões entre marxistas são acaloradas, porém com profundidade e diversidade. A história muda análises de acordo com a conjuntura e os contextos e paradigmas geram novas análises e conclusões. As revoluções mais importantes para a classe trabalhadora: a revolução russa, chinesa, cubana, entre outras, mudaram suas avaliações de 1991 para 2020’s.  

Antigamente as esquerdas tinham vários grupos políticos, com muitas crenças, atitudes e costumes. Os seguidores de um autor ou líder político tinham roupas, gestos, palavras e signos que identificavam as tribos. É algo muito humano e que se assemelham às religiões ou torcidas organizadas de times de futebol. A Antropologia explica isso. São símbolos, gestos e expressões que identificam grupos e os caracterizam. As brigas entre stalinistas e trotskistas são um clássico excelente, um “must” de críticas e avaliações que tinham um perfil de agregador de grupos, quase um diálogo de surdos, com verdades e mentiras no ar. 

 Em nível histórico três líderes da revolução russa se destacam no imaginário coletivo: Lenin (Bryan, 1992), Stalin e Trotsky. O embate causou uma controvérsia: fazer a revolução num só país (a URSS) ou continuar uma internacionalização das revoluções, uma revolução permanente mundial? (algum trotskista me dará broncas e me corrigirá, desculpe-me as grosserias dessa “viagem” ...  rs) Mas podemos dizer que as inflexões seriam essas, com um simplismo para ilustrar algumas ideias primordiais.  O comandante do Exército Vermelho, Leon Trotsky, que derrotou mais de dez países nos ataques à URSS, era o defensor da internacionalização da Revolução Russa, de uma revolução mundial. 

O sucessor de Lenin na liderança da União Soviética (URSS) estava entre Stalin e Trotsky. A posição de fazer a revolução socialista e manter as bases ou internacionalizar a revolução para garantir a sustentação foi um embate que teve centralidade nos anos 1920 e teve como desfecho a decisão de construir a liderança para Josef Stalin. Tempos depois Leon Trotsky foi para o exílio e anos depois morreu em um assassinato, talvez ordenado por Stalin. O intelectual judeu soviético manteve o internacionalismo e seus seguidores mantiveram essa visão, com debates sobre análise de conjuntura, contextos e apoios internacionais. E isso é muito bom! 

Uma crise importante que ocorreu no marxismo foi essencial para diminuir a força das torcidas organizadas, além de tornar a análise mais científica, com refutações de fragilidades e enfatizar pontos importantes, nevrálgicos para analisar o contexto social, econômico, político e ambiental e tomar decisões 2.  

No flanco oriental, a China, Japão, Filipinas, Coreias, entre outros haviam sido invadidas pelo imperialismo japonês e dezenas de milhões de mortes semelhantes às do exército nazista. Havia movimentos de esquerda na região e o Exército Vermelho derrotou as forças do Eixo na Manchúria. Em 1949, os comunistas venceram os nacionalistas do Kuomitang e fizeram a revolução chinesa. Em 1953 isso se concretizou com a derrota dos EUA na guerra das Coreias. E em 1973 o Vietnã derrotou os EUA na guerra de libertação e unificou o país. A Ásia Oriental tem influência chinesa e socialista relevante desde então. A China é uma potência militar regional. 

 China, anos 1950-70. Fonte: Gettymages,  

Soviéticos, chineses, cubanos, entre outros, não são “santos” nem demónios. Fizeram revoluções, estimularam lutas, erraram, acertaram e causaram preocupações ao imperialismo ocidental. Angola, Moçambique, Coreia do Norte, Cuba, Vietnã, entre outros, fizeram revoluções, seja por independência, autonomia, soberania, muitas contra a opressão dos países imperialistas. Um parceiro “cognitivo” de Trotsky foi o comunista argentino que foi um dos líderes da revolução cubana, Ernesto Che Guevara.  Digamos que o internacionalismo é uma característica socialista em que há uma curva de aprendizado no desenvolvimento das forças produtivas em si.  

Em termos militares e estratégicos, a China não ficou parada no tempo. Tem forças armadas com milhões de soldados e investem sistematicamente, estão entre as prioridades nos planos quinquenais. Tem ogivas nucleares, exército, marinha, aeronáutica, projetos espaciais, entre outros. Os EUA incentivam o confronto a partir do Japão, Coreia do Sul, Austrália em uma suposta intenção da invasão de Taiwan, província rebelde que recebeu os derrotados na revolução chinesa em 1949. É dessa questão que se cria uma polêmica de um suposto imperialismo chinês ao requerer a inserção de Taiwan no modelo seguido por Hong Kong, “um país, dois sistemas”.  

Uma coisa que era muito comum após a revolução russa é a articulação orgânica e informal de grupos que tinham como objetivo fazer a revolução em seus países, algo considerado essencial para Trotsky. A URSS tinha a III Internacional, que articulava os países e às vezes havia tentativas de tomar o “poder”. Isso foi moda naquela época e retratava a luta pela independência e a soberania de muitos povos, dada a bipolaridade contextual. Isso ocorreu na China, Coreia do Norte, Cuba, Vietnã, Nicarágua, entre outros. Era uma visão romantizada da Revolução Francesa e muito menos eficaz que a Revolução Inglesa. Isso caiu em desuso a partir de 1991.  

Por outro lado, isso proporcionou ganhos para a China. Na maior parte do século XX, a China teve predominância na zona rural. Mao Zedong fez a reforma agrária e priorizou a estruturação para a segurança alimentar, defesa, estabilização do sistema, criação dos conselhos locais e provinciais e educação política para centenas de milhões de pessoas. Houve erros e acertos nas políticas públicas e a estruturação do Estado e da infraestrutura, uma estruturação do capitalismo de Estado com uma revolução industrial de base. Foram 30 anos de estruturação da República Popular da China e isso deu as bases para o desenvolvimento de novas forças produtivas.  

O suposto Fim da História, pregado por Francis Fukuyama com o fim da URSS e do Pacto de Varsóvia não foi concretizado. O suposto fim do Socialismo, com o fim da URSS e da Cortina de Ferro, foi a emergência dos EUA como o vencedor da Guerra Fria e com a uma unipolaridade ocidental coletiva liderada pelos EUA. A Queda do Muro de Berlim simboliza para o Ocidente o fim do “imperialismo” soviético e das correntes de ideias associadas.  Isso gerou a confiança de omnipresença para as próximas décadas, em um contexto de financeirização da economia ocidental sem avaliar o desenvolvimento do modo de produção capitalista, que passou a ser financeiro. 

A análise crítica permite mudanças de cenário e mudanças na Rússia czarista. A NEP soviética constrói o modo de produção capitalista do século XX na URSS. Sem isso o desenvolvimento das forças produtivas e não haveria unidade nacional. Isso gerou o welfare state na URSS e no mundo, é análogo nas análises de Mao Zedong e Deng Xiaoping. A análise e posterior ações corretivas surgem da constatação de erros e mudanças de orientações das forças políticas sociais e governamentais em seus contextos. Não são abandonos de orientações, são mudanças na práxis de rumo a partir da industrialização privada de bens de consumo. 

A seguir analisamos um contexto distinto, aberto no século XXI. 


A China no Século XXI 


Provérbio chinês para refletir: “A água nunca discute com a pedra, mas quase sempre encontra um caminho” 

A Revolução Chinesa é uma herdeira da Revolução Russa. Atualmente, os críticos e detratores da República Popular da China criaram algo que era comum a qualificar a URSS como implantadora do socialismo e do comunismo no planeta.  Apesar da existência de maoístas no mundo a construção do socialismo priorizou a China e adjacências (Coreia do Norte, Vietnã, entre outros). Houve divergências com a URSS após Stalin, mas não houve embates relevantes. Não houve uma disseminação intensiva de revoluções, de certa forma pregado pelo trotskismo e por muitos marxistas leninistas. 

O processo de industrialização intensiva do país no último quartel do século XX e gerou uma classe trabalhadora industrial e de serviços, incorporando 800 milhões de pessoas saídas da pobreza no século XXI. O crescimento da massa salarial gerou um mercado consumidor importante para o país e com influência no desenvolvimento econômico e social. A melhoria da qualidade de vida refletiu na educação, qualificação profissional e na inovação, semelhante ao que ocorreu no Japão, Coreia do Sul e tigres asiáticos, rumo à tecnociência.  

Os resultados do neoliberalismo, contraditoriamente, não levaram ao apogeu dos países desenvolvidos capitalistas. A falta de planejamento em longo prazo do mercado financeiro levou à concentração de capital e efeitos colaterais inesperados na Europa, Japão e EUA. A relativa financeirização do Ocidente ocorreu em paralelo à industrialização de países asiáticos, amadurecimento do mercado chinês e a avanços da economia planificada chinesa, vigente em planos quinquenais desde os anos 1950. A visão de ganhos de capital no curto prazo e o ufanismo da unipolaridade obscureceu o que isso significava na teoria do valor trabalho sem produção industrial direta. 

A terceirização do modo de produção capitalista do Ocidente coletivo para a China e Ásia transformou a China numa “fábrica do mundo”. A China observou o fim da URSS e assistiu a unipolaridade conjuntural. A aparente vitória do neoliberalismo assistiu a uma percepção de vitória do imperialismo norte americano e ocidental e uma nova divisão internacional do trabalho, focada no lucro e no mercado financeiro, com indústrias sendo transferidas para a China e sudeste asiático, com salários menores naquele contexto. Isso gerou lucros para o mercado financeiro e desindustrialização progressiva dos países desenvolvidos. O Rei está nu e a China é a “fábrica do mundo”. 

 

 A economia planificada é exemplificada pelos trens de alta velocidade (TAV). O TAV tem mais de 50.000km de extensão feitos em cerca de 20 anos, demonstra que o capitalismo de Estado é importante na infraestrutura, no planejamento urbano, na mobilidade e no desenvolvimento econômico, social, com sustentabilidade ambiental. O lucro imediato de terceirizações ou economia privada por trechos lucrativos é substituído por uma noção de totalidade estruturada da matriz de mobilidade, com redução de transporte rodoviário e aéreo e ganhos nas atividades produtivas, turismo, educação, saúde e sustentabilidade ambiental.  

O retorno será para o país em médio e longo prazo, chega às pessoas, empresas, serviços e oportunidades culturais, turísticas e econômicas. O lucro imediato é substituído por planejamento com ganhos econômicos, sociais e ambientais de longo prazo. Isso ocorre em países desenvolvidos, na Europa Ocidental, Japão, EUA ou nos planos plurianuais em geral, mas com descontinuidades. Na China isso possui mais continuidade de políticas públicas, com acertos e mudanças contextuais. É tipicamente pós capitalista, o que antes retrata o Estado sem influência das empresas privadas, conhecido antigamente como ditadura do proletariado. 

Fonte: Gettyimages, anos 2010-20. 

Contudo, não se observa um surto de imperialismo chinês no mundo. Enquanto os EUA têm 800 bases militares pelo planeta, a China tem poucas, quase todas no país. A China tem ogivas nucleares, satélites, aviões, porta aviões e exército com milhões de componentes. Mas sua ênfase está focada na Ásia e com alianças regionais com a Coreia do Norte, Mongólia, Rússia, Vietnã, Paquistão, entre outros. Isso parece mais adequado ao que a China faz há mais de 2000 anos: sistemas de defesa contra invasores, algo que é observado desde Gengis Khan, Grã Bretanha, Japão, entre outros. Algo que parece prevenir ataques dos EUA e aliados à superpotência asiática. 

Uma das prioridades nos últimos planos quinquenais chineses é a questão da defesa. Há ampliação dos recursos para o fortalecimento, atualização e expansão das forças armadas chinesas e isso é demonstrado há anos. As comemorações da vitória sobre o exército fascista japonês de 1945 em 2025 parecem para um observador externo uma provocação ao Japão, país que pertence ao bloco do Ocidente coletivo na Ásia e preparativos para a anexação de Taiwan.  Seria um sinal de guerra aos EUA e aliados? 

O desempenho internacional da China é focado na economia. A superpotência mundial negocia com seu porte e competência, o que impõe a agenda alternativa a países menores. Quanto mais desenvolvido o país, mais a conversa é de “gente grande”, com complexidade progressiva.  

A seguir trato de Xi Jinping, enquanto dirigente chinês e um processo de revolução permanente, de acordo com as mudanças estruturais. 

Xi Jinping e a revolução permanente 


Xi Jinping é o dirigente máximo do Partido Comunista Chinês (PCCh) e chefe de Estado desde 2012. Ou seja, é o mandatário máximo da superpotência mundial. Ele é um exemplo de construção de lideranças há mais de 50 anos, quando saiu da comunidade e liderou províncias e outras posições no comando nacional. É uma liderança formada no coletivo do PCCh, passando por mais de dez planos quinquenais nesse período. É o exercício da democracia socialista e que transcende uma visão personalista de governo e reforça uma construção social e histórica em sua liderança.  

Fonte: China2Brazil 

Viajando um pouco no argumento remeto à questão cultural e histórica. Nos últimos 2000 anos a China tem tido uma postura defensiva. Foram ocupados e dominados por invasores como os mongóis e europeus. Houve invasões de Gengis Khan e a guerra do ópio, mas não houve ofensivas relevantes para além da Ásia. A construção das Muralhas da China são equipamentos e infraestruturas defensivas e que colocam fronteiras. Confucio e Sun Tzu podem ser utilizados para uma revolução permanente e parecem convergir para Gramsci. A disputa de hegemonia está focada na economia, na tecnociência, no desenvolvimento das forças produtivas. 

Entendendo a revolução permanente enquanto um processo histórico tenso, sujeito a avanços e retrocessos, a China emerge com uma análise crítica, adequação sociotécnica na produção de bens de consumo, no entendimento que o mercado existe ao menos desde o modo de produção asiático e com o exercício de um capitalismo de Estado onde a extração de mais valia e orientada para investimentos, inovação, PLR, ganhos de investidores e para o Estado, o que gera ganhos indiretos para os cidadãos e a sociedade civil. É aquilo que Elias Jabbour trata como socialismo chinês, uma transição entre capitalismo e comunismo. 

Além disso, temos um aspecto lúdico do imperialismo que se encontra na indústria cultural. A cultura greco-romana é muito rica, caótica, criativa e universal. Grécia, Roma, Europa Ocidental e, finalmente, os EUA fazem parte da dominação a partir da literatura, do cinema, música, meios de comunicação, imprensa, mídia, internet etc há séculos. Há um apelo com consistência e poder do consentimento pela arte. Mesmo a “Arquitetura da Destruição” se faz assim. Hollywood e as indústria fonográfica digital fazem artes de nível mundial, em que a hegemonia se consolida. O imperialismo também age por meio da cultura e da arte. 

A China é um país milenar com muitos povos e culturas. Contudo, a postura é introspectiva e discreta. Os EUA não são carnavalescos como o Brasil, mas tem uma extroversão que percorre o mundo há décadas. A beleza artística da indústria cultural yankee constrói um consentimento para o imperialismo. O impacto da indústria cultural é a produção de inúmeras produções cinematográficas, HQs, TVs que apresentam o militarismo norte americano/ocidental como protagonista, indestrutível, invencível e vitorioso, apesar de Platoon, Lawrence das Arábias ou Apocalipse Now... 

Além das forças armadas ativas, o capitalismo ocidental sobrepuja outras culturas e auxilia na construção do consentimento ao imperialismo. E, claro, as forças econômicas e o mercado financeiro ocidental compõem a base, a infraestrutura. A república oriental socialista é coadjuvante na indústria cultural, tem um cinema, música, arte e cultura de alta qualidade, mas não tem um papel tão importante como o observado na Coreia do Sul, Japão, outros da Ásia. A fase pop chegará, até porque os vizinhos ajudam na quebra do gelo aos orientais e há forte produção cultural na China para os 1,4 bilhão de chineses. 

A conclusão que chego é que a China é uma superpotência mundial e que tem presença no mundo econômico e social, mas não exerce o imperialismo. Na multipolaridade ela compartilha a questão militar com a Rússia e atualmente com a nova potência regional, o Irã. Isso está relacionado principalmente à Eurásia com alguma relevância na África. Mas não há reflexos em uma abordagem de dominação mundial. A disputa de hegemonia ocorre no nível econômico, tecnocientífico e geopolítico nas novas Rotas da Seda. Mas não há dados conclusivos que categorizem a República Popular da China como imperialista. 

Em termos de uma revolução permanente, revisitando de forma grosseira e superficial o conceito de Trotsky, relaciono à disputa de hegemonia como uma transição do capitalismo ao comunismo, o que podemos considerar como um modo de produção socialista. É um processo de longo prazo como foi a transição do feudalismo ao capitalismo e que apresenta contradições, retrocessos e avanços. A revolução permanente demanda comunicação, troca de experiências, debates, autocríticas, democracia direta e planejamento. E isso transcende uma discussão nacional, passa a ser internacional, de acordo com a correlação de forças. 


A REVOLUÇÂO MUNDIAL E A MULTIPOLARIDADE 


Voltando ao termo revolução, um marxista diria que isso é uma mudança do modo de produção. A transição do feudalismo para o capitalismo durou mais de 400 anos e entre o capitalismo e o comunismo isso também terá longo prazo. Não existe fórmula mágica nem atalhos. Toda relação técnica na produção reproduz novas relações sociais de produção, já diria um diálogo de Marx para Proudhon (Marx, 1988b). E isso leva tempo e tem maturação, porque é mudar a cabeça das pessoas sobre a realidade atual, com mudanças de máquinas, equipamentos, maneira de trabalhar, consumir e viver em um meio ambiente dinâmico e caótico, apesar da aparente estática vigente. 

O capitalismo é dominante, mas até o século XX se observava resquícios do feudalismo em vários países, como Rússia e Japão. Mas podemos dizer que o modo de produção capitalista é hegemônico porque determina as orientações da política, da economia e da defesa em nível mundial. Contudo, os vestígios de modos de produção anteriores podem estar presentes. E isso pode ser acidental ou caótico, não previsto em manuais ou leis. E claro, pode ser tradição seletiva, trazida de volta por reacionários com fins específicos. As contradições do paradigma surgem na ciência normal, podendo ser erros ou sinais de superação.  

O Ocidente é identificado com a cultura greco-romana. O Imperialismo marca uma característica da sua construção histórica, desde as cidades-estado gregas, Macedônia e o império romano. Nesses mais de 2000 anos foram muitas conquistas, avanços, inovações e problemas construídos. Houve muitos impérios hegemônicos desde então: Roma, Bizâncio, Espanha, Portugal, Grã Bretanha, Estados Unidos, entre outros. A partir do século XVI isso foi tendo abrangência mundial e mudou a Humanidade. E pode estar sendo superado por um novo modo de produção. 

Após o fim da URSS, 1991, a unipolaridade foi implantada e o imperialismo passou a ter liderança única dos EUA. Desde então o neoliberalismo, a globalização se juntaram ao imperialismo e as guerras entravam como motivo de acumulação de capital, poder, petróleo e exercícios militares.   

A China, grande país socialista sobrevivente do fim da URSS, ficou na deles e fez correções de rota, análogas às de Lenin e Stalin com a NEP, em uma análise crítica nos erros das revoluções socialistas do século XX. Consentiram a dominação norte americana e incorporaram a produção de bens de consumo em empresas privadas. 

O antigo império do centro virou a fábrica do mundo no século XXI. Diante de decisão dos neoliberais houve desindustrialização progressiva no Ocidente. As estratégias orientais de inovação (Japão, Coreia do Sul e China) se aliaram ao Capitalismo de Estado e economia planificada socialista e a China passou a ser uma nova superpotência mundial, porém sem as características ocidentais como o imperialismo. As empresas subordinadas de grande porte são subordinadas ao PCCh, com representação na administração e seguindo as diretrizes dos planos quinquenais. 

Nem todo o mundo fez o mesmo.  Países orientais, africanos, americanos e na Oceania não tiveram esse mesmo ímpeto. Exceções como egípcios, mongóis, muçulmanos, otomanos são relevantes. Porém isso não teve um processo relevante na Índia e na China, a não ser na construção dos Estados nacionais em si. São centenas de povos e há contradições e conflitos, mas não caracterizam imperialismos na Ásia e no mundo. Exceção: Japão, restauração Meiji (1875-1945). 

Estamos vivendo mudanças sensíveis em nível mundial. A China é um país com cultura milenar e que está centrada em intelectuais e espirituais distintas do Ocidente. Sua dimensão continental abriga centenas de povos com histórias próprias, várias culturas e línguas. As marcas do confucionismo, do budismo se aliam a uma cultura de “império do Centro”, onde a muralha da China é um símbolo. Sua orientação é mais defensiva do que imperialista, no sentido de conquistar novos territórios no mundo. Isso não dá para ser tratado aqui, mas é alvo de muitas publicações sobre o tema. 

Estamos em uma conjuntura de mudança de contexto. Houve em 2026 a visita de Donald Trump, presidente dos EUA, à República Popular da China, com vários empresários, sobretudo das Big Techs e outros chineses. Em uma viagem de dois dias, houve um encontro entre dois países em uma situação de guerras, entre a Rússia x Ucrânia (OTAN) e Israel + EUA x Irã. Há claramente uma disputa entre o “Sul Global” e o Ocidente “Coletivo” (EUA e Europa Ocidental e aliados orientais). A antítese é a emergência do BRICS, um grupo de países de países do Sul Global . A síntese é indeterminada e sujeita aos próximos capítulos da História... 

A disputa de hegemonia é algo essencial no autor e líder comunista italiano Antonio Gramsci (2017), que escreveu sua maior obra no cárcere fascista de Mussolini.  O processo é feito sob tensão política e social e sua base cognitiva e comportamental incide em um resultado complexo e inusitado. A luta se faz no desenvolvimento tecnocientífico, desde as letras escritas, nos algoritmos, além do dinheiro, nas greves, manifestações, locais de convívio e/ou redes sociais. E usando o conhecimento do animal social, a intuição coletiva e o reflexo das torcidas organizadas da vida até um diálogo de alto nível, habermasiano... 

A República Popular da China iniciou uma revolução socialista a partir de 1949. A afirmação de Trotsky de desenvolvimento desigual e combinado pode ser muito apropriada para o contexto atual. Mesmo sendo uma das maiores superpotências mundiais, a revolução socialista mundial não é uma sucessão de tomadas de poder em atacado em nível internacional. O desenvolvimento das forças produtivas da China tem mais de 70 anos de construção e não é algo copiado cegamente. Depende de correlação de forças, um caminho de aprendizado e um processo de inovação de acordo com as realidades locais e regionais.  

Porém, destaco que o que importa é o conceito de revolução permanente atualizado. A revolução socialista é um processo histórico. Isso é associado à mudança do modo de produção, é complexo, lento, gradual, contraditório e dialético. A transição do capitalismo para o comunismo é particular de cada país no mundo. Quando o PCCh ressalta que o socialismo chinês é uma construção social e histórica que reflete o processo de transformação feito em muitos anos de lutas, conquistas, derrotas, vitórias e aprendizado, que vieram da URSS, do Ocidente, do capitalismo de Estado e dos processos de trabalho e inovação no país e no mundo.  

 

 

Os países socialistas, que fizeram a tomada de Estado, têm mais autonomia em mudar a infraestrutura e a superestrutura. A realidade local, as adequações dos planos quinquenais nacionais do PCCh podem gerar uma engenharia reversa institucional. Vietnã, Cuba, Laos, Coreia do Norte, entre outros têm essas vantagens na apropriação do que foi feito na China. Há muita diferença no desenvolvimento das forças produtivas e uma paciência histórica no amadurecimento das relações sociais de produção, assim como o desenvolvimento tecnocientífico nacional. É um processo de cultivo e engenharia reversa de cultura produtiva e social. Com kaizen. 

Em outros países a correlação de forças sugere algo similar ao que observamos na Escandinávia. A social-democracia clássica teve maior desenvolvimento no século XX e o welfare state se combinou ao desenvolvimento social e produtivo. A classe trabalhadora teve protagonismo na sociedade e na produção, com reformas intelectuais e morais relevantes no desenvolvimento das forças produtivas em longo prazo. Os indicadores sociais e econômicos indicam alto desempenho e qualidade de vida, é o que mais se aproxima ao Socialismo no Ocidente. 

Nesse sentido, a classe trabalhadora brasileira teve um papel relevante na América Latina. Os governos do Partido dos Trabalhadores levaram o maior líder sindical do país, Lula, à presidência da República. isso tem clara relevância porque é uma referência da social-democracia clássica, dado o protagonismo do movimento sindical e da sociedade civil 3. Foram governos de reformas sociais, econômicas, ambientais e tecnocientíficas, dada a criação de parcelas de um estado de bem estar social. O reacionarismo existe, como se observou no impeachment da presidenta Dilma e na prisão de Lula. Mas há resiliências e retorno de mudanças desde 2023.  

Cada país tem a sua realidade e as escolhas feitas em sua história. Atualmente estamos em um mundo em transição, na qual o Brasil teve pouca tradição democrática e uma cultura ocidental predominante. Logo, há uma tendência e processos lentos e graduais para a democratização e de apropriação parcial dos avanços mundiais e correções a partir de reformas estruturais, sociais, culturais de médio e longo prazo. O aprofundamento das relações no #BRICS tende a trabalhar uma malha de ecossistemas de inovação entre os países membros e isso colabora para avanços para o país e da América Latina. 

Logo, ao contrário do que muitos intelectuais, militantes e dirigentes observavam na Guerra Fria, a tomada de poder já ocorreu em alguns países, mas isso não é determinante, dado o que se observou na dissolução do Pacto de Varsóvia e o fim da URSS. O imperialismo, utilizado há séculos pelo Ocidente, parece ter um processo de enfraquecimento em nível mundial. EUA, Europa e Japão têm influência internacional, mas o predomínio foi atenuado. China, Rússia e Irã passam ter influências regionais, econômicas e tecnológicas. O multilateralismo está colocado em pauta no nível internacional. Mas isso não repercute em um novo imperialismo. 

Um destaque a ser dado é que a China fez algo semelhante ao que a Coreia do Sul, Tigres Asiáticos e o Japão fizeram no final do século XX. A produção industrial e os serviços cresceram, gerando o crescimento do proletariado, com aumento da massa salarial e do mercado interno. Essas produções geraram ganho de escala para o comércio internacional de produtos de alto valor agregado como automóveis, aparelhos eletrônicos, industrializados em geral, o que fez o país ser o maior parceiro comercial de dezenas de países. Isso aumentou comunicação e novos negócios, algo superior à questão militar fora da Ásia. 

Uma visão sobre uma revolução mundial socialista entra em uma nova fase do desenvolvimento das forças produtivas. O modo de produção capitalista acontece em vários países, mas seu foco se distribui entre a China, EUA, Europa, entre outros. Mas o socialismo chega a um destaque da China, com vários resultados dos planos quinquenais. É o centro nervoso na emergência de um modo de produção pós capitalista, com mudanças substantivas nas políticas públicas e na sociedade civil, que têm influência mundial e com desenvolvimento desigual e combinado entre nações e povos. O resultado delas aparece como destaque para o país. 

Durante séculos, o imperialismo de países europeus destruiu civilizações, cometeu genocídios, escravizou e fatiou os territórios. A extração de recursos minerais e riquezas foi dominante até meados do século XX. Houve a libertação de vários países ao fim da 2ª Guerra Mundial. Contudo, as relações entre colônias e metrópoles continuou em alguns casos de subordinação. O Brasil agiu de forma distinta, principalmente com países de língua portuguesa e desenvolveu apoios com empresas de construção civil e outros fins. Porém isso foi exceção à regra. 

Um bom exemplo de multipolaridade antagônica ao imperialismo pode ser dado na relação da China com a maior parte da África. A China zerou impostos de importação para 53 países africanos a partir de 2026. Isso não é desenvolvido pela dominação convencional e não há forças armadas chinesas na fronteira dos países para intimidar os países, como ocorreu por séculos. É um exemplo de articulação de interesses distinto das dominações em nível internacional.  

As negociações sobre investimentos é algo que tem o ganho de escala feito nos últimos planos quinquenais e que são transplantados para a construção civil pesada e infraestrutura (estradas, ferrovias, pontes, portos etc) na África. Isso não é usual no exercício do imperialismo, que procura explorar, coagir e extrair mais valia dos países dominados com redução da soberania. Há de certa forma uma via de mão dupla possível, dependendo da capacidade de negociação entre os países. 

Claro, isso não é paternalismo. Países como Índia, Rússia, Brasil e do Ocidente não são tratados de forma fácil pela China. Aí é uma negociação mais tensa e difícil. Isso leva em consideração a correlação de forças produtivas. Na África isso é uma demonstração de diplomacia em nível continental, mas tem negociações específicas sobre infraestrutura, investimentos, parcerias que são complexas, duras. Mas não tem paralelo com a espoliação do imperialismo. Pontes, portos, estradas, ferrovias são construídas, pelos interesses de facilitar as importações, mas como demanda de países africanos e contrapartidas feitas. 

As novas rotas da Seda são outro tema importante. Elas existem há milhares de anos e foi motivos de disputas entre Ocidente e Oriente até a conquista de Constantinopla e a emergência de Istambul. Ligava a Eurásia e atualmente tem como destaques a China, Índia, Rússia, Irã, entre outros e cobre rotas comerciais que chegam à Europa e à África.  

A rota da Seda - Ártico aparece como novidade e com o aquecimento global é acelerador logístico porque passa pelo Ártico reduzindo custos e prazos de logística e deslocamento entre os continentes. Apesar de ataques verbais de Trump, com ameaças de anexação do Canadá e da Groenlândia, não teve problemas com a Rússia ou a China, com navios quebradores de gelo com motores nucleares, submarinos e pesquisa científica. 

Concluindo, a multipolaridade compõe uma pluralidade de concepções de mundo, heterogeneidade de forças produtivas e conflitos de interesses no caminhar da história. A transição do capitalismo ao comunismo é controversa, longa e que sempre leva em consideração a referência do socialismo chinês e outras experiências no mundo. A revolução é um processo dinâmico, difuso e de comunicação de médio e longo prazo. Pode ter retrocessos civilizacionais, sempre possível como observamos no retorno do fascismo à Humanidade de acordo com a conveniência de grupos dominantes, porém em declínio na disputa de hegemonia.  

REFERÊNCIAS 


Bianchi, Alvaro. O primado da política: revolução permanente e transição. Revista Outubro, 5 (5), 101-115, 2000. Em https://outubrorevista.com.br/wp-content/uploads/2015/02/Revista-Outubro-Edic%CC%A7a%CC%83o-5-Artigo-07.pdf  

BRYAN, Newton. Educação, trabalho e tecnologia. Tese de doutorado defendida pela Faculdade de Educação – UNICAMP. Campinas, 1992.  

GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere, volume 1 - 6: introdução ao estudo da filosofia, a filosofia de Benedetto Croce / Antonio Gramsci; tradução de Carlos NelsonCoutinho. - 1. ed. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2017. 

JABBOUR, Elias. China hoje: Projeto nacional, desenvolvimento e socialismo de mercado. [S.l.]: Anita Garibaldi. ISBN 978-85-7277-106-1, 2010. 

__________ China: Socialismo e Desenvolvimento – sete décadas depois. [S.l.]: Anita Garibaldi. ISBN 978-65-990905-5-4 

__________ Socialist economic development in the 21st century: a century after the bolshevik revolution. Col: Routledge-Giappichelli studies in business and management. London New York, NY: Routledge. ISBN 978-1-032-21222-7. 2022 

__________ China: O socialismo do século XXI. São Paulo, SP: Boitempo. ISBN 978-65-5717-109-7. 2021 

MARX, Karl. O Capital. Crítica da Economia Política. Vol. 1 e 2. São Paulo, Ed. Nova Cultural, 1985. 

__________ O Capital O Capital. Crítica da Economia Política. Livro Segundo: o Processo de Circulação do Capital. São Paulo, Nova Cultural, 1988a. 

__________ Miseria de la Filosofia. Moscou, Progreso, 1988b. 

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