Toda reta é uma curva: Um papo sobre Ciência, Tecnologia, Tecnociência e Inovação e seus atores


A ideia inicial é fazer um papo reto, direto e não acadêmico sobre um tema complexo e que pode ser simplificado. Tento isso aqui, partindo dos possíveis protagonistas dessa História. 


Willian Higa


Ciência, Tecnologia e Inovação (CTI) é um tema difícil, mala de ser tratado. É uma coisa fantástica, maravilhosa, espantosa, pode causar medo e fascinação. A impotência frente à magnitude da CTI das consequentes transformações sociais e culturais, gera uma figura mítica que beira uma adoração, uma religião. Vai desde aqueles que odeiam, fogem, entram em pânico, pedem demissão (os tecnofóbicos) até fanáticos religiosos que acreditam piamente no deus CTI a tal ponto de virar um apêndice dela. Pode-se achar que esse deus tenha o poder da verdade, da certeza, de sua universalidade, unicidade, inexorabilidade e inevitabilidade. Discutir com deus é um pecado, uma blasfêmia. Essa é a cena melodramática dos seguidores desse deus. 


Fonte: Fresco Capital, Li Yang  


Com o passar dos anos, cientistas e tecnólogos, gestores, monges do deus CTI foram tomando café, conversando, trocando ideias e foram trabalhando em grupo. A figura do personagem da Disney, o professor Pardal, cientista louco, que trabalhava sozinho em uma casa maluca ficou no museu dos velhos desenhos animados e HQs. Agora, o trabalho em equipes multi, inter e transdisciplinares e barreiras foram superadas. Houve evoluções e a dinâmica mudou. O deus CTI teve metamorfoses e a entropia gerou interações em que mudou para uma interação caótica, onde as fronteiras entre ciência e tecnologia começam a ficar mais tênues e são focadas no processo toyotista. 

Surge um novo deus, um super herói que bota a CTI em um liquidificador e gera algo caótico como @ perpétu@ Delírio (de Sandman): a Tecnociência. A tecnociência nasce no neoliberalismo e é um deus superpoderoso, movido por dezenas de milhares de PHDs, engenheiros, médicos, advogados, publicitários, técnicos, CEOs, gerentes e outros monges. Associando isso ao Tecnofeudalismo, a Tecnociência professa verdades como que só empresas inovam. E, claro, só pode rezar quem é monge, quem conhece a bíblia ou é nobre, bilionário. Para o chão da fábrica sobra o medo dos Dragões, um Tempos Modernos (Chaplin repaginado) e a necessidade da servidão voluntária e o consentimento, de preferência ativo e festivo! 

 Fonte: Netflix, Sandman, Neil Gaiman 

O papo reto que proponho aqui é dessacralizar o deus Tecnociência. Por que os monges não podem ser analfabetos ou pobres? O mantra desenvolvido pelo capitalismo reforçou a subsunção, mas está em crise. Muitos atores saíram de cena e protagonistas indiscutíveis, os galãs, estão na berlinda. Vilões viram mocinhos da noite pro dia. A velocidade da luz da internet gera atenção flutuante e conclusões distintas, até contraditórias. Isso gera as condições para um papo reto com esse conteúdo, apesar da tentativa de manter a ordem estamental da tríade hegemônica. 

O mundo está em transformação gradual desde meados do século XX, com a tecnociência mudando as coisas. Inovações radicais feitas desde o final da segunda guerra mundial mudam as sociedades, a maneira de comer, dormir e viver. Um professor norteamericano, Michael Burawoy, dizia que o mundo da produção tem um jogo entre gerentes e trabalhadores, o “making out” (fazer parecer). Isso fazia com que o trabalhador fingisse que estava fazendo o que a gerência mandava. E os white collar fingiam que estavam sendo obedecidos, mesmo não sabendo como eles faziam o produto. Isso valeu para o fordismo taylorismo, mudou com o toyotismo, mas nem tanto... O making out da tríade tecnocientífica começa a ficar claro. 

A discussão sobre C&T&I, sobre tecnociência, é muito sofisticada. De fato, o que foi feito nos últimos 200 anos é algo surpreendente. Até mais, desde a máquina a vapor, Sir Isaac Newton, o capitalismo transformou a vida na Terra. A produção do conhecimento gerou invenções, inovações e o desenvolvimento das forças produtivas descritos por Marx, desde a cooperação simples até a grande indústria foi algo sensível, surpreendente e que mudou o cenário, as relações sociais e culturais. Mas tem problemas que abordo nesse papo reto. 

Uma das maiores invenções da Humanidade foi feita por povos antigos, que não tinham graduação, mestrado, doutorado, pós-doc ou prêmio Nobel: a roda. Essa invenção de autoria desconhecida virou inovação e até ganhou guerras. E podemos citar dezenas de invenções desruptivas que foram feitas por pessoas comuns e comunidades. Povos de culturas diferentes, gregos, troianos e chineses, com inúmeros níveis culturais, sociais inventam e inovam sem meritocracia. Quantas vezes um pajé, comunidades indígenas, agricultores e peões de fábrica não usaram sua genialidade para criar coisas novas que inovaram o cenário produtivo? Será que somente a empresa inventa? E por quê? 

Uma coisa não discutida abertamente é que há aquilo que falamos de forma discreta e em alto nível de discurso elaborado desde o século XIX. O velho barbudo alemão devia discutir abertamente, mas o papo reto ficou cada vez mais sofisticado e escamoteia o lance da mais valia. Ou seja, o pessoal vende sua força de trabalho aos donos dos negócios, das empresas, o chamado “detentor dos meios de produção”. Ele ganha sua remuneração, que pode ser salário, contrato, serviços pagos, retiradas e, claro, a empresa ou entidade produtiva tem uma parte do ganho acumulado. 

 

Fonte: Brasiliários.com 

A extração de mais valia relativa pode se tornar mais difícil devido à concorrência e aí pinta a necessidade de inventar, de inovar, para manter o negócio em pé. Para justificar esse ganho, o pessoal criou um discurso de que quem inova é a empresa. E dentro do jogo bruto, cabeça, plantas industriais, no agrobusiness, entre outros, às vezes com milhares de PHDs em seus centros de pesquisa e desenvolvimento. E o Estado apoia, fomenta, incentiva ou demanda invenções e consolida inovações com investimentos. É a tal da hélice tripla, algo que foi consenso no século passado. A tríade do deus Tecnociência se baseia nisso. 

A chamada luta de classes criou muito debate, controvérsias e passou a ser uma questão de crenças. As pessoas, nascem, crescem, aprendem, criam estatuto de valores e exercem seu livre arbítrio, seja por coerção ou por consentimento. Adotam times de futebol por simpatia, paixão, religião, gosto musical e visões de sociedade. É normal, pode ser até saudável. Desde que a pessoa saiba que é uma decisão e que há opções. E que a coisa não vire uma espécie de pecado mortal divergir. Que você endureça mas não perca a ternura, a capacidade de sentir e respeitar o outro (Che). 

E no caso tupiniquim a luta de classes criou um mantra que não permite observar que todos podem inventar. Inovar, claro, depende de financiamento, o que pode nem ocorrer por cultura local, que é a aversão brasileira ao risco de inovar... E, claro, os monges aprenderam em séculos a não desobedecer os cardeais do capital (os países centrais do Ocidente Coletivo). Eles descendem do pessoal do metalismo, que achava como seus reis que quem trabalha é trouxa e que trocam ouro com os Steeler, Wood, Carpenter et caterva, que viviam lá nos burgos. E que eram cheios de invenções. Pelo jeito viraram empregados deles, ou sócios menores como Prado Jr tc... 

Como ressaltam muitas pessoas, inclusive o presidente Lula, as universidades praticamente só começaram a surgir no Brasil  após 1930. Como afirmava Caio Prado Junior, a classe empresarial brasileira aprendeu a sobreviver no mercado há séculos e sempre foi sócia menor do capital internacional. Florestan Fernandes e FHC têm uma avaliação de que isso acaba levando a uma cultura dominante avessa ao risco e, portanto, à inovação. Logo, tendemos a ter uma hélice tripla isso de forma fragmentada, incompleta.  A tríade da Tecnociência pode ter mais gente, mas sequer aproveita as trés hélices em sua entropia e possibilidades de caos... 

O que eu vulgarmente chamo de capitalismo de Estado incorpora a ausência de iniciativa privada para atender demandas do mercado e falta de empresas em determinadas áreas. Em países com desenvolvimento tardio, como o Brasil isso ocorreu e gerou empresas estatais, como a Petrobras, Embraer, Vale, Eletrobras.Gerou estruturas que induzem, fomentam e subsidiam políticas industriais e públicas, como o IBGE, Fiocruz, Butantã, Embrapa. Elas ocupam setores produtivos com deficiências em inovação e chegam a ser protagonistas. O Estado brasileiro é protagonista nas inovações que chega a gerar mais valia nas bolsas por aí. 

Esse não é um caso isolado. Essa condição sistêmica ocorre em outros países, com histórias distintas, mas com similaridades no processo de inovação. No caso chinês, que teve revolução socialista em 1949, o Estado teve papel ativo no desenvolvimento das forças produtivas, adaptando estruturas produtivas da URSS (atualmente Rússia) e atraindo empresas privadas convencionais de vários países. Porém, a existência de quase mil empresas estatais do porte da Petrobras (maior empresa brasileira) permite ao Estado avaliar a situação  na economia planificada. A exceção vira regra e gera um ecossistema de inovação com economia planificada, iniciativa privada e sociedade civil. 

A universidade forma muitos profissionais, que fazem a história no Estado e nas empresas, mas não integram pesquisas necessariamente. Isso, claro, tem ligações com a Embrapa, Embraer, Petrobras, Fiocruz, Itaú, entre outros. Mas a pesquisa passa a ter mais interesse na docência e para atividades acadêmicas. E a extensão universitária ocorre na sociedade civil e com entes do Estado. Logo, a universidade faz seu papel na formação de recursos humanos, na pós-graduação e na comunidade científica, mas a demanda empresarial é limitada. E os ecossistemas de inovação envolvem empresas, governos, membros da comunidade científica, ex-alunos e sociedade civil. 

Nas fronteiras do conhecimento do Capitalismo isso é orientado para o aumento dos ganhos, remunerações e retornos de investimento para superar a concorrência, com uma visão de “big business” e na reversão da queda tendencial da taxa de lucro. Quanto maior o projeto, o investimento e o superlucro melhor. E de fato isso trouxe muitos avanços no mercado, nas sociedades, mas trouxe mais desigualdade e problemas ambientais pelo déficit cognitivo, um olhar para o meio ambiente e os impactos sociais e econômicos disso. 

No século XXI vemos que o discurso do “obscurecimento da extração da mais valia” trafega na mesma linha da questão da inovação. Inovação é invenção que gera dinheiro a mais nos produtos e serviços por melhoria da eficiência ou geração de novas coisas. E numa confluência perversa, ou seja, coisas que ocorrem de maneira diversa, a meritocracia, algo muito difundido na comunidade científica para fins de valorização do desenvolvimento intelectual por mérito, há uma fusão com os interesses empresariais no tocante a quem é destinado a fazer a inovação: a empresa. É uma coincidência de objetivos criados a partir de ideias diferentes mas que articulam interesses comuns. Ou não. 

E isso reforça a falta de entendimento que a economia popular, solidária e/ou criativa inova. O Estado brasileiro está realizando a Conferência Nacional de Economia Popular e Solidária (CONES), contando com a participação do presidente Lula em 13 de agosto de 2025, com linhas de financiamento para empreendimentos solidários em vários ministérios e alargando o ecossistema de inovação, envolvendo universidades e redes. Parece que as coisas estão mudando. Lógico, a tríade da Tecnociência não gosta, mas está sendo processado. A Cultura tecnocientífica está sendo mudada. 

Saindo do papo acadêmico e empresarial, faço links diferentes. Antonio Gramsci afirmava que toda pessoa é um intelectual. Pensa, aprende, avalia e decide. Paulo Freire trabalhava a educação desde o SENAI como sendo algo inerente ao ser humano. Todas as pessoas têm condições a partir de seu cotidiano, de avaliar e da realidade concreta propor soluções e colocar isso em prática. Não é preciso ser doutor ou ser CEO numa empresa transnacional para inovar. Mas tem livre arbítrio para isso e sua criatividade pode se manifestar em muitas ocasiões de forma inusitada. A experiência prática e de vida faz com que o trabalhador tenha um conhecimento tácito, adquirido no dia a dia e não escrito ou intangível. E isso garante uma participação em invenções. Daí para inovar é um pulinho ou não... 

Mudando o objeto do papo sério, sou roqueiro e observo algumas bandas que gosto em um movimento que corre em paralelo a Paulo Freire. O ano de 1968 expressou uma catarsis coletiva de criatividade, liberdade, mudanças comportamentais e ambientais. Foi algo intenso, múltiplo e que tem impactos em várias questões cotidianas. Esse processo foi transdisciplinar e teve muitos desdobramentos na cultura popular, para muito além do rock. O feminismo, o ambientalismo, a liberdade sexual e a cultura hippie chegaram ao ápice ali, com forte movimento pelo fim da guerra do Vietnã. 

Após esse processo vem uma calmaria criativa. Diante de um momento de marasmo no rock, nos anos 70, onde ídolos são colocados em pedestais e comparados a compositores e artistas de música clássica. O movimento punk chegou e adotou o “do it yourself”. Ou seja, se a pessoa não sabe tocar, suba ao palco e toque, cante, proteste. Não precisa ser um astro de rock para fazer sonzeira. Suba, atue, aprenda, reclame, grite contra o mundo e se manifeste. Houve mudanças na contracultura e o underground se encontrou na antítese ao mainstream.

Isso gerou uma grande quantidade de novidades, com uma visão diferente do rock clássico. Vindo de bandas como Ramones, Dead Kennedys, Clash, Sex Pistols, GBH ou Green Day, as bandas mudaram a forma como era feito o rock e guardam semelhanças na antítese à meritocracia. E, claro, inovaram na cena artística e cultural. As inovações ocorreram na cultura popular e se associaram à arte contemporânea, pós-moderna. A arte faz parte do conhecimento tecnocientífico e abarca artistas que podem ter um nível de instrução “baixo” até pessoas com pós graduação. Isso é heterogêneo e plural. 

O construtivismo pedagógico, o movimento punk e a educação popular têm uma intersecção cognitiva similar e que está presente nos processos de inovação. Essa parte do rock and roll terá outro texto sobre os ecossistemas de inovação do underground, que envolve punk e heavy metal (os metaleiros também amam! Rs) 

Voltando às perguntas anteriores desse papo reto já foram registradas muitas invenções e inovações feitas por pessoas anônimas desde a pré-história até os dias atuais. Citamos algumas:  

  • Tribos indígenas que carregam conhecimentos sobre plantas medicinais, fitoterápicos e que são levadas por ONGs para empresas de países desenvolvidos que as patenteiam; 
  • Inovações incrementais inventadas por operários em plantas industriais devido à experiência profissional, o conhecimento tácito, intangível; 
  • Inovações feitas no universo culinário popular criados pelas vovós e que viraram segredos de franquias; 
  • Agricultores, cientistas e cidadãos criando, inventando e construindo a agroecologia, com alimentos orgânicos mudando a tese agricultura dominante;
  • As inovações em moda, design, mobiliário, pesca, entre outras.  


A economia popular e solidária, além de casos da economia criativa, entre outras podem ser arranjos individuais (MEI), coletivos (empresas, cooperativas, associações, sindicatos) ou até empresas estatais. Qualquer um pode inovar. 

Uma abordagem que não quero entrar muito neste texto é discutida nas áreas de inovação e que estão paulatinamente sendo incorporadas no dia a dia porque fazem sentido. Puxando da Biologia, da Ecologia, muitos autores concluíram que o Homem é um Ser Social e faz o trabalho em grupo. Isso ocorre na fábrica, no supermercado, nas lojas, na agricultura e no comércio. E isso ocorre nas universidades, centros de pesquisa, governos e na sociedade civil. Tudo isso indica algo como um Ecossistema, que envolve empresas, centros e grupos de pesquisa, governos, sociedade civil e outros, de acordo com afinidades, objetivos comuns e produção criativa. 

Um exemplo de ecossistema de inovação popular pode ser tratado em uma das marcas brasileiras no mundo: as Escolas de Samba. Reconhecidas internacionalmente, elas têm vida regular durante o ano e desfilam em competição no Carnaval. Tem escolhas de temas, treinos, músicas, coreografias e envolvem muitos conhecimentos para o seu funcionamento e execução: economia, engenharia, turismo, artes, moda, cultura, antropologia, letras, fisiologia, comunicação social, entre outras. Envolve apoio do Estado e inúmeras sinergias com empresas. E é integrante da sociedade civil e pode se articular com áreas de cultura, moda, gastronomia e educação, entre outras. É algo com uma construção social e histórica que muda de acordo com o passar do tempo mas está fora da caixinha convencional. É uma rede de tecnociência popular e solidária. 

Outro bom exemplo está na agricultura familiar. Tratam-se em geral de pequenas propriedades rurais, tocadas por famílias ou comunidades e que produzem culturas orientadas para o mercado interno do que podemos chamar de comida. Sendo bem simplista, é aquilo que vai pro nosso prato ou para o consumo cotidiano das famílias. É aquilo que está na merenda escolar e que está na cesta básica, gerando segurança alimentar.  

Envolve também a economia popular solidária e está associada à agroecologia. Alimentação produzida sem adição de pesticidas, insumos químicos e com pouca ou nenhuma mudança genética. Trata-se de outro vetor de inovação muito promissor e que envolvem tribos de consumidores alternativos: vegetarianos, veganos, neohippies, malucos e pós-capitalistas... rs E, claro, todos eles inovam e alguns monges da tríade ajudam nesse ecossistema de inovação popular. 


É isso, o papo fica aberto para outras insanas e pecadoras ideias abertas em era do pós-proletariado... Inté!

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